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quarta-feira, 23 de março de 2011

Reforma Florestal desagrada sergipanos

Reforma Florestal desagrada sergipanos
Eles criticam alterações propostas ao Código Florestal
 
27/02/2011 - 09:12 - Fonte: INFONET
Trabalhadores querem inclusão da Agricultura Familiar no texto (Fotos: Portal Infonet)
Com o argumento de que é preciso levantar a bandeira da preservação e não da destruição, ambientalistas e agricultores sergipanos se mostram apreensivos com as alterações propostas ao Código Florestal Brasileiro por meio de projeto do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
O texto já foi aprovado em comissão especial na Câmara e aguarda votação no plenário prevista para março deste ano. Representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores (Contag) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Sergipe (Fetase), discutirão o assunto durante palestra na Câmara Federal.
A Superintendente de Biodiversidade e Floresta da Secretaria
Valdineide Santana: "Vai desconstruir o que já ganhamos na política ambiental"
de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Valdineide Santana falou com a reportagem do Portal Infonet sobre as alterações propostas pelo deputado Aldo Rebelo.
“Se acontecer do jeito que está, acho que vai desconstruir o que nós ganhamos na política de meio ambiente no Brasil, que traça as obrigações quanto às reservas florestais e à garantia da sustentabilidade. A gente viu o que aconteceu recentemente no Rio de Janeiro por conta de uma ocupação desordenada em áreas de floresta e as propostas do deputado reduzem significativamente o percentual de área protegida, excluem os chamados topos de morro e colocam em risco as populações que vivem em áreas que devem ter florestas”, entende Valdineide Santana.
Alberto Marques: "Propostas contemplam os ruralistas"
“Acredito que o Governo tenha um consenso quanto a essas mudanças no Código Florestal Brasileiro. É uma coisa para ser pensada. Não dá para fazer de maneira radical. A gente tem áreas que tem que ser mantidas como áreas preservadas”, ressalta a superintendente da Semarh.
Estudo
Para os ambientalistas, a proposta do deputado Aldo Rebelo precisa de um melhor estudo e entendimento, principalmente no que se refere ao passivo ambiental quanto às áreas de reserva legal, já que os proprietários rurais têm a obrigação de ter 20% de reserva natural, vegetação nativa. As áreas de preservação permanente definidas no artigo 2º do Código Florestal vão desde a mata ciliar, margens de rios e nascentes e terrenos com
Deputado Aldo Rebelo durante palestra em Aracaju sobre as reformas (Foto: Jorge Henrique)
declividade acentuada e que qualquer proprietário rural precisa recuperar essas áreas para as adequações ambientais. E no entendimento do deputado, as áreas não precisam ser recuperadas.
Outra proposta que vem sendo combatida pelos ambientalistas diz respeito a redução das áreas de preservação permanente. Para se ter uma idéia, está previsto no Código Florestal que em rios até 10 metros, a faixa de proteção deve ser de 30 metros de mata ciliar. A proposta do deputado é de redução para 15 metros.
Reserva Legal
A proposta de diminuição das áreas de reserva legal [atualmente de 20% no Nordeste e na Amazônia, de 80%] vem gerando críticas entre os ambientalistas. Isso porque o argumento do deputado é de que em países como Holanda, Inglaterra e Estados Unidos não existe a necessidade dessa reserva, o que vem sendo contestado principalmente por conta de o Brasil estar numa situação geográfica muito diferente.
Ilegalidade
Durante palestra proferida semana passada em Aracaju sobre as mudanças no Código Florestal Brasileiro, o ministro Aldo Rebelo disse que seu texto leva em conta os interesses de todos os envolvidos no setor da agricultura:  dos produtores rurais aos ambientalistas, cada um com suas peculiaridades.
“A adaptação que eu proponho ao Código tem como objetivo proteger tanto os agricultores quanto o meio ambiente. Não tem sentido mexer [no Código] e deixar todos os agricultores na ilegalidade. O que eu procuro é uma solução concreta para um problema concreto. No Brasil, vários agricultores estão em situação ilegal. Isso precisa ficar muito claro", ressata.
Agricultores
No próximo dia dois de março, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) vai realizar na Câmara dos Deputados em Brasília, uma palestra com a finalidade de discutir e apresentar a proposta dos agricultores. Trabalhadores de Sergipe estarão participando do evento.
Segundo o Secretário de Política Agrária e Meio Ambiente da Contag em Sergipe, Alberto Marques Santos, existe uma corrente de ambientalistas que defendem que não haja alterações no Código Florestal, como propõe o deputado Aldo Rabelo. “A Contag quer alterações, mas entende que precisa haver mudanças no código, que não seja o viés do agronegócio como está no relatório de Aldo Rebelo.
“Na palestra do próximo dia dois, a Contag vai apresentar 19 pontos ao substitutivo de Aldo Rabelo, a exemplo da inclusão do conceito de agricultura familiar, como determina a lei 11.326, de 24 de julho de 2006. O deputado contempla os ruralistas, mas não ouviu os agricultores. Ele isenta o produtor da área de reserva legal, mas não isenta da área de APP [agricultura permanente]”, entende. Com isso, está de um lado os ambientalistas, do outro o deputado e nós queremos fazer o contraponto”, esclarece.
Ele acrescentou que os trabalhadores representados pelos sindicatos, federações e pela Contag [cuja secretária de Meio Ambiente é a sergipana Rosicleide dos Santos], vão tentar implementar as suas propostas às emendas de plenário, já que o relatório do deputado Aldo Rabelo foi aprovado.
Por Aldaci de Souza

sexta-feira, 4 de março de 2011

Seca amazônica de 2010 é a mais severa do século. Entrevista com Paulo Brando

Seca amazônica de 2010 é a mais severa do século. Entrevista com Paulo Brando
IHU - Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos
Adital
A seca registrada na floresta amazônica no ano passado foi ainda mais devastadora do que a de 2005, considerada, até então, a mais agressiva dos últimos cem anos. Segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Paulo Brando, responsável pelo estudo, dois ciclos climáticos causam secas na floresta: o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte.
Em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone, ele explica que a cada 30 anos, a Amazônia passa por ciclos de secas severas como as que aconteceram recentemente. O desafio, no entanto, é descobrir se as últimas secas fazem parte desse processo ou são ocasionadas em função das mudanças climáticas.
Surpreso com a intensidade das secas, Brando diz que ainda não é possível contabilizar os danos no ecossistema. "Não fomos a campo avaliar os impactos da seca de 2010, porque normalmente demora de um a dois anos para ocorrer a mortalidade de árvores. Com base nos impactos da seca de 2005, supomos que a última seca deve ter ocasionado uma mortalidade de árvores bastante acentuada na Amazônia, com a liberação de mais ou menos cinco bilhões de toneladas de CO2 nas próximas décadas”.
Paulo Brando é coordenador do projeto Savanização do Ipam.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A seca na Amazônia em 2010 é considerada a mais grave da região nos últimos cem anos. Qual foi a extensão dessa seca, como ela se manifestou?
Paulo Brando – Dois ciclos climáticos geram secas para a região amazônica: o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte. O El Niño, que é o aquecimento do Pacífico, normalmente tem ciclos de mais ou menos três a cinco anos. Assim, a seca de 1997 a 1998 e algumas anteriores a ela ocorreram por causa do El Niño.
A seca de 2010, como a de 2005, foi causada pelo aquecimento do Atlântico Norte, que trouxe ventos úmidos para a região amazônica. Em 2010, cerca de 57% da Amazônia teve uma precipitação mais baixa do que a média geral, contra 37% em 2005, que tinha sido considerada a pior seca do século.
IHU On-Line – O senhor afirmou que a seca de 2005 foi tida como um evento que acontece a cada cem anos, mas ocorreu outra pior cinco anos depois. Por que essa seca é ainda mais severa?
Paulo Brando – Ficamos surpresos com duas secas tão próximas em 2005 e 2010. Sabemos que elas foram causadas por causa do aquecimento do Atlântico Norte, mas ainda não sabemos dizer se isso é causado por mudanças climáticas ou não. A Amazônia normalmente passa por ciclos de seca que se repetem a cada 30 anos. Então, pode ser que a floresta está passando por este ciclo ou, do contrário, pode estar iniciando um processo de frequentes secas na região.

terça-feira, 1 de março de 2011

Acampamento reúne mil mulheres contra agrotóxicos em SE

1 de março de 2011

De 1º a 3 de março, cerca de 1.000 mulheres, trabalhadoras rurais de todo o Estado, se mobilizam no Acampamento de Mulheres, em torno do Dia Internacional de Luta das Mulheres, em Aracaju (SE), na Praça da Bandeira.

A atividade possui o caráter de denúncia contra o agronegócio e os agrotóxicos, a criminalização dos movimentos sociais, a violência da mulher.

Além disso, as manifestante cobram a Reforma Agrária e a Soberania Alimentar.

A programação do acampamento prevê análise de conjuntura política e agrária, estudo sobre as relações de gênero, palestra sobre as políticas públicas para as mulheres e audiências públicas.

O tema do acampamento é “Mulheres na luta! Contra o agronegócio, agrotóxicos e a violência. Por reforma agrária e soberania alimentar”

Obras da transposição do Rio São Francisco violam direitos humanos


Por Maristela Lopes


Falta de água potável, falta de titulação e demarcação das terras dos quilombolas e indígenas, falta de escolas, de posto médico.
Esses são alguns dos exemplos de violação dos direitos humanos que constam no Relatório da Missão à Petrolina e região do Rio São Francisco, apresentado pela Plataforma Dhesca Brasil – Rede Nacional de Direitos Humanos, que congrega entidades ligadas às redes de direitos humanos da sociedade civil.
O relatório foi apresentado oficialmente pelo sociólogo Sergio Sauer, no plenário da Assembléia Legislativa de Pernambuco, no dia 22 de fevereiro.
Sauer fez um breve relato das principais demandas e recomendações do relatório, frisando que todo o trabalho foi estruturado a partir da coleta de depoimentos e denúncias dos integrantes das comunidades de Pernambuco atingidas pelas obras de transposição do rio São Francisco e pela construção de barragens no semi-árido.
Ele lembrou que a missão de verificação in loco aconteceu em outubro de 2010, com visitas aos municípios de Petrolina, Santa Maria da Boa Vista e Cabrobó, região do sertão do São Francisco, onde está concentrado grande número de assentamentos da Reforma Agraria.
Para ele, essas obras “violam os direitos humanos dessas populações, principalmente o direito à terra e território. E nem as obras de compensação como habitação adequada e escolas até agora foram cumpridas”.
O documento assinado em 2008 entre o Ministério da Integração e o Incra nacional, que garantia compensação das perdas de lotes individuais e das áreas dos assentamentos da Reforma Agrária com a construção de dutos da transposição, não foi cumprido.
As comunidades tradicionais como os quilombolas e indígenas e moradores dos assentamentos da Reforma Agrária são os principais atingidos pela transposição do São Francisco e pela construção de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca, ambas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

À margem da cidadania
A área da comunidade quilombola de Cupira formada por 200 famílias, e que fica localizada à margem do São Francisco, não possui água potável. O atendimento médico só é possível há 18 quilômetros, sendo que os casos mais graves são levados para Petrolina, distante há 100 quilômetros. E essa área será totalmente inundada com a obra da Barragem do Riacho Seco.
Fernanda Rodrigues, representante dessa comunidade e uma das coordenadoras do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), denunciou durante o lançamento do relatório “a falta de respeito com a história de mais de duzentos anos de meu povo. Para nós, a terra não é somente um espaço. É o nosso território, é onde vivemos com nossas tradições e manifestações culturais”.
Ela disse ainda que as empresas que chegam por lá querem interferir até mesmo “na nossa cor dizendo quem é ou não é quilombola”. Esse exemplo se expressa como uma negação ao que diz a Constituição brasileira, que garante o direito fundamental de ser quilombola. Das 18 comunidades reconhecidas daquela região, nenhuma até agora possui título territorial.
Na comunidade de Jatobá, no município de Cabobró, as 116 famílias mesmo vivendo às margens do São Francisco, não contam com água. O relatório registra que Codevasf instalou os canos, com a promessa de água potável, mas simplesmente não há fornecimento de água.
Escolas e postos de saúde, como obras de compensação também não foram realizadas. Com isso, crianças e adolescentes para frequentarem a escola precisam se deslocar a cidades em transporte escolar precário - quando ele existe, pois muitas vezes encontra-se quebrado.
Dentre a série de denúncias feitas pelos ribeirinhos, quilombolas, indígenas e trabalhadores rurais assentados, uma diz respeito à falta de informações oficiais sobre quais são os planos governamentais para essa região.
No documento, consta também que os estudos antropológicos dos povos indígenas Truká e Tumbalalá não foram finalizados e já perduram por muito tempo, cujos territórios não são reconhecidos e nem demarcados, na sua integralidade. Essas áreas, ou serão inundadas ou impactadas por essas obras na região. E diante dessas incertezas têm ocorrido conflitos entre esses povos indígenas e os órgãos governamentais.

Reforma agrária
No acampamento Lagoa da Pedra, do MST, as 103 famílias, embora cadastradas no Incra, não recebem cestas básicas há cerca de quatro meses. A explicação é que não há transporte para a entrega por falta de licitação. E outro agravante é que não existe fornecimento de água para o acampamento. Essas famílias são obrigadas a comprarem a água dos carros pipas, em média por R$150,00 a 200 reais.
Para Edgar Mota, do Setor de Direitos Humanos do MST em Pernambuco, “isso demonstra que estado brasileiro tem sido um grande violador de direitos humanos. Por isso, temos que garantir nossos direitos”.
O Relatório da Missão à Petrolina e região do Rio São Francisco será encaminhado às autoridades federal e estadual. E mecanismos internacionais poderão ser utilizados para que os problemas diagnosticados, as recomendações e denúncias possam ser solucionadas e que a situação vivida na região seja reconhecida como violação dos direitos humanos.
O relatório também será utilizado como forma de dar visibilidade a toda articulação e às mobilizações das comunidades e entidades
envolvidas.
(Fotos de Tiago Morais)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"Hegemonia do agrotóxico omite 8 mil anos de produção"

25 de fevereiro de 2011
Por Rede Brasil Atual
João Peres


Franco da Rocha (SP) – Café com leite, pão com manteiga, pessoas reunidas em volta da mesa: o dia começa tranquilo para várias famílias de produtores rurais. Intoxicação, disfunção renal, náusea: o dia termina tenso. O quadro do uso de defensivos agrícolas no Brasil é preocupante, segundo professora Raquel Rigotto, da Universidade Federal do Ceará. Ela apresentou dados de um estudo sobre os efeitos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores rurais em seminário organizado na capital paulista nesta quinta-feira (24), pelo MST.

O assentamento Dom Tomaz Balduíno, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, é um exemplo de calmaria. O estudo apresentado, não. São ao menos 700 mil toneladas de agrotóxicos ao ano, ou uma média superior a três quilos por brasileiro, com perigosos resíduos nos alimentos consumidos no dia a dia. Um destaque negativo é a concentração desse tipo de substância na soja (300 mil toneladas/ano) e no milho (100 mil toneladas/ano).

O motivo para a liderança nesse ranking é que se tratam dos dois principais cultivos de organismos geneticamente modificados no país, com forte crescimento anual. Raquel Rigotto lamenta que tenha se fechado o ciclo no qual as empresas de biotecnologia fornecem a semente transgênica e o agrotóxico mais recomendado para aquela semente.

Raquel lembra aos agricultores reunidos no Espaço Patativa do Assaré que o Brasil e o mundo assistem, desde a década de 1960, à crescente presença de agrotóxicos, à concentração do mercado em poucas empresas e à mecanização do campo. "Criaram a cultura da Revolução Verde, que nos fez esquecer que durante oito mil anos a humanidade produziu uma agricultura sem veneno", analisa.

A pesquisadora lamenta que siga arraigada na sociedade a ideia de que o único meio para uma produção agrícola eficaz é a aplicação de venenos. Sucessivos governos brasileiros colaboraram para a formação dessa cultura, com generosos incentivos tributários e pouco monitoramento, traços encontrados em toda a América Latina. "Somos vistos como o pedaço de continente com muita terra fértil, muita água, mão de obra barata e desorganizada e um Estado com políticas favoráveis", critica.
Pressões

Para Raquel, um dos fundamentos da luta contra os agrotóxicos deve ser a pressão por uma postura rígida dos governos em relação ao assunto. Outro caminho fundamental, na visão da professora, é a mobilização dos trabalhadores rurais, os principais afetados pelo desrespeito à legislação e pelo uso desordenado dessas substâncias. "O que se precisa para comprar agrotóxico hoje? Só dinheiro. Com dinheiro, compra quantos litros quiser", aponta.

Raquel lembra ainda que a postura das empresas é um fator complicador na evolução do debate sobre o uso de agrotóxicos. Como o custo para desenvolver um novo produto é altíssimo, há corporações que querem que os órgãos governamentais aprovem suas substâncias a qualquer custo, independentemente dos riscos para a sociedade e para o meio ambiente.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem sido um alvo de críticas frequentes por manter uma postura mais rigorosa. Além disso, há grande movimentação para evitar que os casos de intoxicação por defensivos agrícolas sejam comunicados às autoridades de saúde, o que cria, segundo ela, certa invisibilidade em torno do tema, na medida em que não aparece nas estatísticas oficiais.

"As empresas querem que a gente prove que determinado agrotóxico provoca câncer, querem que apresentemos o número de mortos como argumento. A gente precisa construir o debate sobre o princípio da precaução: se tem risco, elas que provem que não causa câncer”, desafia.
Conscientização

O assentamento Dom Tomaz tem 63 famílias distribuídas ao longo de 300 hectares – outros 300 são de área de preservação. Cada família produz, para subsistência e para o mercado interno, verduras e legumes em geral. Hoje, é consenso dentro do MST a questão de que a produção deve ser feita sob a perspectiva agroecológica, com respeito ao meio ambiente e sem o uso de agrotóxicos.

Lourival Plácido de Paula, da direção estadual dos sem-terra, lembra, no entanto, que demorou para que caísse em descrédito a crença de que o modelo de produção convencional era o mais eficiente para dar conta de um abastecimento justo e barato. “Com o tempo é que os efeitos desse sistema na agricultura começam a se mostrar cada vez mais graves para a economia e para a população. É um modelo de concentração da riqueza na mão das empresas”

Na segunda parte do seminário, os produtores de diversas partes do estado trocaram experiências, debateram os estudos apresentados por Raquel Rigotto e delinearam estratégias para que as informações sejam levadas a outros assentamentos e a outros movimentos.

Jade Percassi, do setor de educação do MST paulista, considera que o fundamental será discutir maneiras de acabar com a invisibilidade do problema perante a população, tendo como foco a necessidade de restabelecer uma relação saudável entre o humano e a natureza.

“Na sociedade, o debate sobre agrotóxicos não existe. Isso tem efeitos nefastos sobre a saúde da população. Além disso, é um problema para a nossa soberania, pois a agricultura fica nas mãos de seis empresas transnacionais que não dão atenção às questões sociais e ambientais em torno deste veneno”, analias Jade.

Como o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos

Como o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos

A pesquisadora Lia Giraldo, da Fiocruz, analisa o papel do lobby que transformou o país no principal consumidor de venenos agrícolas

22/02/2011

Raquel Júnia

A pesquisadora Lia Giraldo explica como os agrotóxicos foram introduzidos no Brasil a ponto de o país ser hoje o campeão mundial no uso de venenos. Lia é pesquisadora do departamento de saúde coletiva, do laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho, da Fiocruz Pernambuco. Ela coordena um grupo de pesquisadores responsáveis por revisar os estudos científicos existentes sobre onze agrotóxicos que estão em processo de revisão pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O uso de agrotóxicos no Brasil vem crescendo ano após ano. O país lidera o ranking dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Por que consumimos tanto veneno?
Desde a década de 70, exatamente no ano de 1976, o governo criou um plano nacional de defensivos agrícolas. Dentro do modelo da Revolução Verde os países produtores desses agroquímicos pressionaram os governos, através das agências internacionais, para facilitar a entrada desse pacote tecnológico. Em 1976, o Brasil criou uma lei do plano nacional de defensivos agrícolas na qual condiciona o crédito rural ao uso de agrotóxicos. Assim, parte desse recurso captado deveria ser utilizada em compra de agrotóxicos, que eles chamavam, com um eufemismo, de defensivos agrícolas. Então, com isso, os agricultores foram praticamente obrigados a adquirir esse pacote tecnológico. E também com muita rapidez foi formatado um modelo tecnológico de produção que ficou dependente desses insumos, e isso aliado ainda a uma concentração de terras, mecanização, com a utilização de muito menos mão de obra. Tivemos um grande êxodo rural: de lá para cá o Brasil mudou completamente, era um país rural e virou um país urbano, seguindo um fenômeno que aconteceu também em outros países. Então, o Brasil se rendeu às pressões econômicas internacionais na defesa desse modelo. Depois disso houve muito lobby político, inclusive, tivemos ministro ligado a empresas produtoras de agrotóxicos. E isso fez com que o Brasil não só passasse a ser consumidor, mas também produtor desses produtos. As cinco maiores produtoras de agrotóxicos têm fábricas no Brasil – Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto. E depois, dentro dessa linha, e associado ao ciclo de algumas monoculturas como a soja, o algodão, o café e a cana de açúcar, esse modelo casou bem com o modelo de produção de monocultura extensiva, demandando cada vez mais terras, cada vez expulsando mais o pessoal do campo para a cidade. Na divisão internacional do capital, o Brasil ficou com esse perfil de exportador de commodities, com um modelo de desenvolvimento baseado no agronegócio e essa é a explicação para sermos os campeões no uso de agrotóxicos.

A pressão para que os agricultores passassem a usar agrotóxicos também foi colocada em prática nos outros países do hemisfério sul?
Sim. Se analisarmos países da América Latina, como a Argentina e o Uruguai, cada um com suas características, perceberemos que isso se repete. Mas no Brasil esse quadro ganha proporções maiores com o nosso gigantismo territorial e também facilidades e estratégias de abertura para o capital externo, com um governo absolutamente permeável. O Brasil estranhamente tem dois ministérios da agricultura, um para o agronegócio, que é o “gordão”, com bastante dinheiro, e outro para a agricultura familiar, que é magrinho e com pouquinho dinheiro. São dois ministérios da agricultura com políticas completamente divergentes. E por onde a bancada ruralista consegue pressionar a Casa Civil? Por dentro. Criaram uma estrutura por dentro do governo, que é o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], onde passam os interesses do agronegócio.

E quais são as características desses agrotóxicos hoje. Eles são mais tóxicos do que nos anos 70?
A evolução da toxidade tem mais a ver com a resistência das pragas aos produtos. A motivação da evolução não é para produzir produtos menos tóxicos para a saúde ou o meio ambiente. Mas sim porque a natureza reage e as pragas se tornam mais resistentes, e as empresas são obrigadas a produzir novas moléculas para os agrotóxicos serem efetivos. Isso está aliado também com o aumento da quantidade de uso, porque enquanto eles não conseguem produzir uma nova molécula a qual a praga seja mais sensível, eles aumentam a carga de agrotóxico. Então, existe uma toxidade e um perigo com a introdução de novas moléculas, que são mais tóxicas para os seres vivos, portanto para nós, seres humanos também – para as células, para o DNA, para as estruturas biológicas. Mas também há um grande perigo quando se aumenta a concentração de um produto que está tendo baixa eficácia e se aplica esse produto sozinho ou associado a outro ou a um coquetel de outros produtos tóxicos. Se, aumentando a concentração de determinado produto, ele já começar a ameaçar a saúde pública, esse produto já não pode mais ser usado. Aí inventam uma outra molécula, e assim vai. E como as experiências feitas para o registro são baseadas apenas em efeitos agudos – ou seja, a morte – e não há testes de longo prazo principalmente para a saúde humana, a nova molécula é registrada. Mas uma coisa é ver se um ratinho desenvolve câncer em seis meses ou um ano e outra coisa é uma pessoa ficar exposta durante muitos anos. Então, esses aspectos não são levados em consideração para o registro de novos produtos e, com isso, eles têm conseguido registrá-los, até que nós comecemos a registrar novamente danos à saúde e ao meio ambiente e uma série de efeitos negativos que vão então permitir que a agência reguladora casse o registro ou restrinja os produtos.

E quais as consequências disso para o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores rurais e também para a população de modo geral?
As consequências vistas em estudos experimentais são evidências importantes, mas não são suficientes. Porque pode-se alegar que foi em determinado contexto, que é para uma determinada espécie e não para outra, então cria-se sempre uma flexibilidade na hora de extrapolar os dados para a saúde humana. É muito difícil estabelecer essas regras de consumo e de proteção baseando-se nos parâmetros que são adotados, porque eles são criados justamente para proteger o capital. É necessário, portanto, que tenhamos outros indicadores de vigilância da saúde que não sejam apenas esses restritos a estudos experimentais em animais, mas sim baseados em estudos clínicos e epidemiológicos. Há uma resistência quanto a esses estudos serem internalizados como parâmetros para tomar as decisões de registro ou de captação de uma molécula, porque ou os estudos não existem, ou são muito restritos. O governo, as universidades e mesmo as empresas não incentivam esses estudos e a falta desse tipo de informação é uma política para manter a outra política, porque obviamente favorece a manutenção do modelo. Mas existem muitas evidências de danos dos agrotóxicos à saúde, só que, infelizmente, pelos protocolos que são estabelecidos, esses danos não são reconhecidos para a tomada de decisão. (Publicada no site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz)

Comunidade é contaminada por agrotóxicos na região

Comunidade é contaminada por agrotóxicos na região

Em Limoeiro do Norte (CE), os agrotóxicos pulverizados por avião sobre as monoculturas de abacaxi, banana e melão, do perímetro-irrigado Jaguaribe-Apodi, estão contaminando a água da região. De acordo com resultados parciais de pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC), pelo menos oito tipos de venenos já foram encontrados nas amostras de caixas d’águas que abastecem diretamente as torneiras da população. Mesmo assim, os vereadores da cidade conseguiram derrubar uma lei municipal, que proibia a pulverização.

O pesquisador de Saúde Pública, Marcelo Ferreira, do Núcleo Trabalho, Saúde e Meio Ambiente para a Sustentabilidade (Tramas) da UFC, conta que somente com o relato de trabalhadores da monocultura do melão já foi possível registrar o uso de mais de 40 produtos químicos.

“As empresas alegam que, se elas não pulverizarem essas plantações, podem perder até 50% da produção. De todo o veneno que eles jogam em cima das plantações, mais de 30% se perde com o vento, inclusive contaminando as águas do canal e a casa desses moradores, ainda muito próximas a essas fazendas.”

Na década de 1990, multinacionais se instalaram na região por conta de incentivos fiscais do governo do estado.

“Não há estudos sobre o que o uso desses agrotóxicos combinados causam na saúde das pessoas, mas é sabido que podem causar desde lacrimejamento dos olhos, dores de cabeça, enjôos, vômitos e até, em casos crônicos, má formação fetal, problemas de depressão, suicídio.”

O líder comunitário José Maria foi morto no dia 21 de abril deste ano com 25 tiros por denunciar a contaminação da água e exigir que a lei municipal fosse cumprida. Até hoje o crime não foi punido.

De São Paulo, da Radioagência NP, Aline Scarso.

21/09/10

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Brasil Rural

Brasil Rural

O campo continua um desafio brasileiro. Vem dali a comida que abastece as cidades

10/02/2011

Roberto Malvezzi (Gogó)

O Brasil rural, com sua população de 29.852.986 (Censo 2010/IBGE) é o quinto país mais populoso da América Latina e Caribe. Fica atrás apenas do Brasil urbano com 160.879.708 de pessoas, do México com 107.431.225 (Banco Mundial), da Colômbia com 45.659.709 (Banco Mundial), da Argentina com 40.276.376 (Banco Mundial), e à frente do Peru que tem 29.164.883, ou Venezuela que tem 28.384.000 (Banco Mundial).

O Brasil rural vem perdendo população tanto em termos relativos como absolutos. No Censo de 2000 a população urbana representava 81,25% (137.953.959 pessoas), contra 84,35% (160.879.708 pessoas) em 2010. Já a rural representava 18,75% (31.845.211 pessoas) em 2000, contra 15,65% (29.852.986 pessoas) em 2010.

Portanto, depende da leitura que se tem dessa realidade para decidir quais políticas são mais convenientes para o Brasil. Os que pressionam para uma urbanização a qualquer custo, sentem-se seguros para afirmar que a distancia populacional entre o Brasil urbano e o Brasil rural só tende a aumentar. Portanto, as políticas podem e devem ser orientadas para atender a grande massa que está nas cidades. Nesse sentido, também não cabe - como dizem que não cabe do ponto de vista produtivo - qualquer reforma agrária. Afinal, o povo prefere as cidades, mesmo que elas sejam um inferno.

Mas essa realidade pode ser lida de outra forma, afinal, com uma população que é o quinto país da América Latina e Caribe, mesmo que percentualmente seja menor em relação à população urbana, o campo abriga quase 30 milhões de brasileiros. Nem vamos falar no tal Brasil “rurbano”, conceito para o qual os especialistas torcem o nariz, mas que ajuda a entender um bairro periférico como o João Paulo II aqui em Juazeiro, onde 30 mil pessoas se aglomeram para trabalhar como mão de obra barata nos projetos de irrigação da cana, manga e uva. O trabalho dessa população é rural, as condições de vida são insalubres, mas é contabilizada como população urbana.

O campo continua um desafio brasileiro. Vem dali a comida que abastece as cidades. O que seria delas sem os cultivadores de hortaliças que estão no espaço urbano? De onde viriam nossos alimentos se não tivéssemos a agricultura familiar?

O Brasil rural que emerge das estatísticas merece uma consideração mais abrangente que a leitura seca de números que mais ocultam que revelam nossa realidade.

Roberto Malvezzi (Gogó) é assessor da Comissão Pastoral da Terra.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

As causas e efeitos do uso de agrotóxicos

8 de fevereiro de 2011
A pesquisadora Lia Giraldo explica como os agrotóxicos foram introduzidos no Brasil a ponto de o país ser hoje o campeão mundial no uso de venenos. Lia é pesquisadora do departamento de saúde coletiva, do laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho, da Fiocruz Pernambuco. Ela coordena um grupo de pesquisadores responsáveis por revisar os estudos científicos existentes sobre onze agrotóxicos que estão em processo de revisão pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O uso de agrotóxicos no Brasil vem crescendo ano após ano. O país lidera o ranking dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Por que consumimos tanto veneno?

Desde a década de 70, exatamente no ano de 1976, o governo criou um plano nacional de defensivos agrícolas. Dentro do modelo da Revolução Verde os países produtores desses agroquímicos pressionaram os governos, através das agências internacionais, para facilitar a entrada desse pacote tecnológico. Em 1976, o Brasil criou uma lei do plano nacional de defensivos agrícolas na qual condiciona o crédito rural ao uso de agrotóxicos. Assim, parte desse recurso captado deveria ser utilizada em compra de agrotóxicos, que eles chamavam, com um eufemismo, de defensivos agrícolas. Então, com isso, os agricultores foram praticamente obrigados a adquirir esse pacote tecnológico. E também com muita rapidez foi formatado um modelo tecnológico de produção que ficou dependente desses insumos, e isso aliado ainda a uma concentração de terras, mecanização, com a utilização de muito menos mão de obra. Tivemos um grande êxodo rural: de lá para cá o Brasil mudou completamente, era um país rural e virou um país urbano, seguindo um fenômeno que aconteceu também em outros países. Então, o Brasil se rendeu às pressões econômicas internacionais na defesa desse modelo.

Depois disso houve muito lobby político, e, inclusive, tivemos ministro ligado a empresas produtoras de agrotóxicos. E isso fez com que o Brasil não só passasse a ser consumidor, mas também produtor desses produtos. As cinco maiores produtoras de agrotóxicos têm fábricas no Brasil – Basf, Bayer, Cyngenta, DuPont e Monsanto. E depois, dentro dessa linha, e associado ao ciclo de algumas monoculturas como a soja, o algodão, o café e a cana de açúcar, esse modelo casou bem com o modelo de produção de monocultura extensiva , demandando cada vez mais terras, cada vez mais expulsando o pessoal do campo para a cidade. Na divisão internacional do capital, o Brasil ficou com esse perfil de exportador de commodities , com um modelo de desenvolvimento baseado no agronegócio e essa é a explicação para sermos os campeões no uso de agrotóxicos.

A pressão para que os agricultores passassem a usar agrotóxicos também foi colocada em prática nos outros países do hemisfério sul?

Sim. Se analisarmos países da América Latina, como a Argentina e o Uruguai, cada um com suas características, perceberemos que isso se repete. Mas no Brasil esse quadro ganha proporções maiores com o nosso gigantismo territorial e também facilidades e estratégias de abertura para o capital externo, com um governo absolutamente permeável. O Brasil estranhamente tem dois ministérios da agricultura, um para o agronegócio, que é o ‘gordão’, com bastante dinheiro, e outro para a agricultura familiar, que é magrinho e com pouquinho dinheiro. São dois ministérios da agricultura com políticas completamente divergentes. E por onde a bancada ruralista consegue pressionar a casa civil? Por dentro. Criaram uma estrutura por dentro do governo, que é o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], onde passam os interesses do agronegócio. A bancada ruralista tem total trânsito no governo através do Mapa. E a agricultura familiar fica na depêndencia do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o MDA. Isso é uma boa evidência para mostrar como tem sido a política do Brasil: uma política ambígua para dar resposta às pressões da globalização.

E quais são as características destes agrotóxicos hoje. Eles são mais tóxicos do que nos anos 70?

A evolução da toxidade tem mais a ver com a resistência das pragas aos produtos. A motivação da evolução não é para produzir produtos menos tóxicos para a saúde ou o meio ambiente. Mas sim porque a natureza reage e as pragas se tornam mais resistentes, e as empresas são obrigadas a produzir novas moléculas para os agrotóxicos serem efetivos. Isso está aliado também com o aumento da quantidade de uso, porque enquanto eles não conseguem produzir uma nova molécula a qual a praga seja mais sensível, eles aumentam a carga de agrotóxico. Então, existe uma toxidade e um perigo com a introdução de novas moléculas, que são mais tóxicas para os seres vivos, portanto para nós, seres humanos também – para as células, para o DNA, para as estruturas biológicas. Mas também há um grande perigo quando se aumenta a concentração de um produto que está tendo baixa eficácia e se aplica esse produto sozinho ou associado a outro ou a um coquetel de outros produtos tóxicos. Se, aumentando a concentração de determinado produto, ele já começar a ameaçar a saúde pública, esse produto já não pode mais ser usado. Aí inventam uma outra molécula, e assim vai.

E como as experiências feitas para o registro são baseadas apenas em efeitos agudos – ou seja, a morte – e não há testes de longo prazo principalmente para a saúde humana, a nova molécula é registrada. Mas uma coisa é ver se um ratinho desenvolve câncer em seis meses ou um ano e outra coisa é uma pessoa ficar exposta durante muitos anos. Então, esses aspectos não são levados em consideração para o registro de novos produtos e, com isso, eles têm conseguido registrá-los, até que nós comecemos a registrar novamente danos à saude e ao meio ambiente e uma série de efeitos negativos que vão então permitir que a agência reguladora casse o registro ou restrinja os produtos.

Uso de agrotóxicos no Brasil deve superar recorde

4 de fevereiro de 2011

Dependendo do volume de vendas estimado em 2010 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o uso dos agrotóxicos nas lavouras brasileiras deve bater um novo recorde.

Na safra de 2009, foram utilizadas um milhão de toneladas de defensivos agrícolas, adubos e fertilizantes.

As empresas do setor anunciarão o desempenho somente no início de março, mas os dados foram confirmados no final de 2010 pelo presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), Laércio Valentin Giampani.

“A agricultura e nós [indústria de defensivos] fizemos um bom ano. O nosso setor deve crescer. Nós estimamos fechar com um crescimento de 6% a 8%, atingindo US$ 7 bilhões em vendas. Nós medimos o desempenho do nosso setor em vendas.”

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O engenheiro sanitarista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Alexandre Pessoa Dias explica que as altas taxas de consumo estão relacionadas ao modelo de produção.

“Isso faz parte de um modelo de desenvolvimento que tem como indutor o agronegócio. Ele estabelece consórcios com transnacionais, visando o financiamento, fomento e a indução de commodities agroindustriais. A partir daí, se oferta um pacote tecnológico, onde entra o agrotóxico, transgênicos de sementes e fertilizantes.”

Para Alexandre, é necessário investir em uma política agrícola mais preocupada com a produção de alimentos saudáveis. Ele aponta a agroecologia como uma alternativa viável e defende maior rigor na regulação dos produtos.

“Existe um problema no campo que envolve diretamente os trabalhadores que utilizam e manuseiam esses produtos agrotóxicos, dos familiares e da área rural que é afetada diretamente, seja por pulverização aérea, seja pelo caminho das águas que sofrem a contaminação. Como também compromete a soberania alimentar. E aí, estamos falando dos problemas de saúde que ocorrem na cidade.”

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam taxa de resíduos de veneno em um nível prejudicial à saúde.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil é o principal destino de agrotóxicos proibidos no exterior. Dez variedades vendidas livremente aos agricultores não circulam na União Europeia e Estados Unidos. Desde 2002, apenas quatro produtos foram barrados pela Anvisa.

O Endossulfam, por exemplo, é uma substância altamente tóxica e associada a problemas reprodutivos. Já foi vetado em 45 países, mas no Brasil, o uso será permitido até 2013.

Seis anos sem Irmã Dorothy

9 de fevereiro de 2011

Na semana em que se completam seis anos do assassinato de Dorothy Stang ( a missionária foi assassinada dia 12 de fevereiro de 2005), o comitê batizado com o nome da norte-americana realiza uma programação em Belém e em Anapu, município da região do Xingu onde a ela militava na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. 

Em 12 de fevereiro de 2005, Dorothy foi abatida a tiros por pistoleiros, dentro do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança. Cinco dos quatro cumprem pena de prisão, enquanto Regivaldo Pereira Galvão, o 'Taradão', recorre da condenação em liberdade.

A notícia é do jornal O Liberal, 08-02-2011.

O lançamento da 'Semana Irmã Dorothy!  Uma Sagrada Herança a ser Defendida' aconteceu ontem, na praça da República, no centro da capital paraense.  Os militantes do Comitê Dorothy fizeram um manifesto silencioso, com o rosto da missionária estampado em cartazes que foram fincados na grama.
O ato aconteceu ao lado do Movimento pela Vida (Movida), ONG que reivindica justiça na solução de crimes de assassinatos ocorridos em Belém.  'A herança da Irmã Dorothy é vasta.  Ela defendia a floresta, os PDS Esperança e Virola Jatobá, foi uma educadora e defensora dos direitos humanos', lembra um dos coordenadores do comitê, Dinailson Benassuly.  'Ela é a nossa mártir', ressalta.

O comitê foi criado para pressionar as autoridades para que os acusados do crime fossem levados a júri popular.  Benassuly observa que a entidade já cumpriu o seu papel no Pará.  'Estamos esperando este ano como é que vai ser em Brasília.  O Ministério Público e os advogados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) estão vigilantes no Supremo Tribunal Federal (STF)', destaca Benassuly.  Hoje, o comitê começa a investir no combate ao tráfico de pessoas e do trabalho escravo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Temos em torno de 60 mil famílias acampadas no país"

8 de fevereiro de 2011
Do Cinform

João Pedro Stedile, da Coordenação Nacional do MST, faz uma análise negativa do saldo deixado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva no enfrentamento aos problemas agrários e à distribuição da terra no Brasil.

"Infelizmente a situação é negativa, porque o programa de Reforma Agrária no último mandato do Lula não avançou. Temos no Brasil em torno de 60 mil famílias acampadas. Algumas estão assim há quatro anos. Em Sergipe, há cerca de duas mil famílias acampadas. Há um passivo da gestão anterior que o governo Dilma deve encarar como prioridade", diz ele.

Na semana passada Stédile esteve em Aracaju e deu entrevista exclusiva ao Cinform. Jornalista Niúra Belfortt.


Cinform - Qual a expectativa do MST com o Governo Dilma Rousseff? Ao que parece ela possui um discurso mais duro contra as ocupações de terra.

João Pedro Stedile - Os governos refletem as forças sociais que os elegeram. A nossa expectativa é que o Governo Dilma tenha uma representação de apoio de forças populares mais ampla que o Governo Lula. Lula se comunicava direto com as massas por causa do seu carisma. Dilma precisa dialogar mais com os movimentos sociais e as forças populares para, de fato, cumprir com os seus compromissos de fazer um programa de combate à pobreza.

Cinform - A relação do MST com o Governo Déda é boa?

JPS - Eu sou gaúcho, olho de longe, mas pelo que acompanho na imprensa e pelos informes dos companheiros é uma relação boa, mas de autonomia como deve ser. Nós não consideramos o Governo Déda nosso inimigo. Inimigo são o latifúndio e as empresas transnacionais. Quando o Governo Déda ajudar na Reforma Agrária, ele será um aliado. Quando cometer erros, também devemos ter a sinceridade e a honestidade de criticá-lo.

Cinform - Como está hoje a situação do MST em números de acampados e assentados no Brasil? Qual a situação de Sergipe?

JPS - Infelizmente a situação é negativa, porque o programa de Reforma Agrária no último mandato do Lula não avançou. Temos no Brasil em torno de 60 mil famílias acampadas. Algumas estão assim há quatro anos. Em Sergipe, há cerca de duas mil famílias acampadas. Há um passivo da gestão anterior que o Governo Dilma deve encarar como prioridade. Nós vamos propor à presidente que faça o 3º Plano Nacional de Reforma Agrária e estabeleça uma meta de, no mínimo, 100 mil famílias assentadas por ano, através do processo de desapropriação.

Cinform - No Governo Lula, é possível afirmar que 'agronegócio venceu'?

JPS - O que está acontecendo é que há forças poderosas do capital que são maiores que dos governos. E essa lógica do capital chegou à agricultura comprando terras e usinas nos últimos cinco anos. Em apenas três anos, 33% de todo o setor sucroalcooleiro foi desnacionalizado e isso trouxe uma concentração na propriedade da terra e na produção agrícola, uma contrarreforma agrária. O Governo Lula foi um governo de conciliação de classes, não afetou o interesse dos capitalistas que, como ele mesmo disse, 'nunca ganharam tanto dinheiro como no meu governo', e adotou medidas de compensação social com os pobres. Avançamos pouco nas desapropriações e muito em políticas como o Programa Luz para Todos, e o de Aquisição de Alimentos da Conab. Avançamos na construção de casas e no Programa da Merenda Escolar com a aquisição de 30% de produtos da agricultura familiar. Tudo isso são medidas necessárias, mas paliativas porque não afetam a estrutura da propriedade da terra.

" PRA ONDE VAI O DINHEIRO DE NOSSAS PASSAGENS? "

" PRA ONDE VAI O DINHEIRO DE NOSSAS PASSAGENS? "

Movimento Não Pago rebate as informações do Presidente do SETRANSP

Universo Político.com - Todo ano ocorrem discussões próximo ao período do anúncio do reajuste da tarifa. Como o senhor, em nome das empresas de transporte urbano justifica para a sociedade a necessidade desse reajuste anual, mesmo com o transporte precisando de melhorias?
Adierson Monteiro - Nós operamos um serviço público e esse serviço tem que ser pago. E a única forma de pagá-lo é pela tarifa. A metodologia para os cálculos dessa tarifa foram aprovados pela Câmara Municipal há quase 20 anos. O que se lamenta é que só se pensa no transporte público na época de reajuste. Tem é que se verificar quais insumos que impactam no custo da tarifa, e que precisam ser revistos com a redução da carga tributária. Também tem outra questão: a gratuidade. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Setransp (Sindicato das Empresas de Transportes e Passageiros de Aracaju), 25 % das pessoas que utilizam o transporte público não paga. Gratuidade para uns, esse preço vai para outros. Então a sociedade tem que conhecer porque entidade A ou B não paga, e autorizar. A prefeitura inclusive já autorizou a Setransp a realizar esse estudo. E só utilizarão a gratuidade as entidades que tem o amparo da lei para esse caso. E será utilizado um cartão magnético para que possamos saber a quantidade que há dessas pessoas.
Movimento Não Pago
Em primeiro lugar o serviço de transporte coletivo é um direito essencial do povo brasileiro que deve ser gerido pelo Poder Público ou através de concessão. Para haver concessão é necessário realizar uma licitação. Isso nunca aconteceu em Aracaju. Em segundo lugar nós já pagamos pelo serviço com os nossos impostos. Além disso, a forma como se reajusta a tarifa está errada. Deveria ser aprovada ou não na Câmara de Vereadores como preconiza a Lei Orgânica de Aracaju. Quanto às gratuidades, todas são previstas por lei e com orçamento já garantido então esse argumento dos empresários não é válido. 

UP - As empresas pedem um reajuste de 16,67%, no caso, de R$ 2,10 a tarifa passaria para R$ 2,45. Já se comenta sobre a possibilidade de a tarifa ficar em R$ 2,30. Um reajuste inferior ao proposto resultaria em prejuízo para as empresas?
A.M. - Quando se calcula um valor abaixo do necessário, alguma coisa fica faltando. No Brasil a maioria das capitais não tem o transporte com a qualidade ideal, porque nessas capitais não tem se praticado a tarifa justa. Nós encaminhamos a proposta para a prefeitura e já propomos levar esses cálculos para serem discutidos na Câmara Municipal e junto à sociedade, porque é preciso que saibam como são feitos os cálculos. Inclusive, a Câmara Federal elaborou uma cartilha, há dois anos, para os prefeitos, orientando que nos projetos da cidade seja dado prioridade ao transporte público.
Movimento Não Pago
Quem recolhe os dados que constam nas planilhas? Os funcionários das empresas. Quem faz auditoria para confirmar que não estão viciadas? Ninguém. Logo, as planilhas de custos das empresas não devem ser utilizadas nesse momento como ponto crucial para se reajustar a tarifa. Outra coisa: o transporte não tem qualidade porque o transporte coletivo é encarado como mero produto e não como direito essencial.
 

Uso de agrotóxicos no Brasil deve superar recorde de 1 mi de toneladas

Uso de agrotóxicos no Brasil deve superar recorde de 1 mi de toneladas


Dependendo do volume de vendas estimado em 2010 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o uso dos agrotóxicos nas lavouras brasileiras deve bater um novo recorde. Na safra de 2009, foram utilizadas um milhão de toneladas de defensivos agrícolas, adubos e fertilizantes. As empresas do setor anunciarão o desempenho somente no início de março, mas os dados foram confirmados no final de 2010 pelo presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), Laércio Valentin Giampani.

“A agricultura e nós [indústria de defensivos] fizemos um bom ano. O nosso setor deve crescer. Nós estimamos fechar com um crescimento de 6% a 8%, atingindo US$ 7 bilhões em vendas. Nós medimos o desempenho do nosso setor em vendas.”

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O engenheiro sanitarista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Alexandre Pessoa Dias explica que as altas taxas de consumo estão relacionadas ao modelo de produção.

“Isso faz parte de um modelo de desenvolvimento que tem como indutor o agronegócio. Ele estabelece consórcios com transnacionais, visando o financiamento, fomento e a indução de commodities agroindustriais. A partir daí, se oferta um pacote tecnológico, onde entra o agrotóxico, transgênicos de sementes e fertilizantes.”

Para Alexandre, é necessário investir em uma política agrícola mais preocupada com a produção de alimentos saudáveis. Ele aponta a agroecologia como uma alternativa viável e defende maior rigor na regulação dos produtos.

“Existe um problema no campo que envolve diretamente os trabalhadores que utilizam e manuseiam esses produtos agrotóxicos, dos familiares e da área rural que é afetada diretamente, seja por pulverização aérea, seja pelo caminho das águas que sofrem a contaminação. Como também compromete a soberania alimentar. E aí, estamos falando dos problemas de saúde que ocorrem na cidade.”

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam taxa de resíduos de veneno em um nível prejudicial à saúde.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil é o principal destino de agrotóxicos proibidos no exterior. Dez variedades vendidas livremente aos agricultores não circulam na União Europeia e Estados Unidos. Desde 2002, apenas quatro produtos foram barrados pela Anvisa. O Endossulfam, por exemplo, é uma substância altamente tóxica e associada a problemas reprodutivos. Já foi vetado em 45 países, mas no Brasil, o uso será permitido até 2013.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Por que morrem os cortadores de cana?


Por que morrem os cortadores de cana?
Francisco Alves *
Adital
Segundo a Pastoral do Migrante, entre as safras 2004/2005 e 2005/2006 morreram 10 cortadores de cana na Região Canavieira de São Paulo. Eram trabalhadores jovens, com idades variando entre 24 e 50 anos; todos eram migrantes, que tinham vindo de outras regiões do país (Norte de Minas, Bahia, Maranhão, Piauí) para o corte de cana. As causa mortis em seus atestados de óbitos são vagas a respeito do que ocasionou verdadeiramente as mortes, os atestados dizem apenas que morreram por parada cardíaca. 

Para entendermos as razões destas mortes é necessário entendermos o processo de trabalho a que os cortadores de cana estão submetidos nesta atividade produtiva. O processo de trabalho passou por mudanças significativas da década de 80 até a presente década. Na década de 80, logo no seu início, o país, e mais especificamente o setor sucro-alcooleiro, vivia o seu período áureo, em plena vigência do Proálcool, na sua segunda fase (após 1979), que incentivava a produção de álcool hidratado e anidro, produzido em destilarias autônomas, direcionadas a atender ao enorme crescimento da demanda por álcool, derivadas da produção nacional de automóveis movidos unicamente a este novo combustível. O Proálcool foi o maior programa público mundial de produção de combustível alternativo aos derivados do petróleo.

Em decorrência do Proálcool cresceu a produção de cana-de-açúcar, novas destilarias e usinas foram instaladas e cresceu o número de empregos diretos em toda a cadeia produtiva; da indústria produtora de máquinas e equipamentos para o setor sucro-alcooleiro à comercialização de álcool e açúcar, isto é, houve a criação de novos postos de trabalho industrial a novos postos de trabalho agrícola.

Naquele período cresceu também a produtividade da cultura agrícola, medida em quantidade de cana por hectare ocupado com a atividade que saiu de 50 toneladas por hectare e atingiu mais de 80, entre as décadas de 50 e 80. Cresceu também a produtividade do trabalho no corte de cana, medida em toneladas de cana cortadas por dia por homem ocupado. Se na década de 60 a produtividade do trabalho era, em média, de 3 toneladas de cana por dia de trabalho, na década de 80 a produtividade média passa para 6 toneladas de cana por dia por homem ocupado e no final da década de 90 e início da presente década, atinge 12 toneladas de cana por dia.

Trabalho Escravo nas Fazendas do Grupo Maratá

Atlas revira entranhas do trabalho escravo no Maranhão - 01/02/2011

Bianca Pyl


Apreendidos durante as fiscalizações, os cadernos com anotações de débitos servem normalmente para comprovar sistemas de servidão por dívidas existentes nos casos de trabalho escravo contemporâneo.  Não foi diferente na operação trabalhista que libertou 27 pessoas submetidas à escravidão na Fazenda Sagrisa, em Codó (MA), que pertence ao Grupo Maratá, com sede em Lagarto (SE).  Em novembro de 2005, os auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que estiveram no local encontraram oito cadernos na cantina da propriedade no interior do Maranhão.

Além dos registros de dívidas relativas a itens de alimentação, de higiene e até de ferramentas de trabalho, um dos cadernos trazia uma anotação diferente: "um dia de deixação de comer".  Desesperado com a situação de endividamento a qual estava submetido, um dos trabalhadores preferiu cortar a própria alimentação para tentar "poupar" recursos e minimizar o tamanho da mordida dos "descontos" no fim do mês.

Entre os libertados, quatro eram adolescentes com idade inferior a 18 anos e uma criança de apenas 11 anos foi também flagrada trabalhando no local.  Em depoimento, uma das vítimas declarou que nada recebeu pelo trabalho na Fazenda Sagrisa.  Os próprios administradores da propriedade fiscalizada afirmaram na ocasião que os filhos do empresário José Augusto Vieira, dono do Grupo Maratá, administram parte do patrimônio do conglomerado, mas o próprio José Augusto "mantém o controle das decisões".

À Justiça, o "gato" (aliciador de mão de obra) Raimundo Nonato Pereira chegou ainda a confirmar que, quando necessário, comprava ferramentas aos trabalhadores e depois descontava dos salários dos mesmos, ratificando a prática de servidão por dívida.  Segundo Raimundo, a água dos empregados realmente era a mesma utilizada pelo gado.

Mesmo com todas essas evidências colhidas pela fiscalização e compiladas pelo Ministério Público Federal do Maranhão (MPF/MA), o fazendeiro José Augusto Vieira e o "gato" Raimundo, conhecido como "Anão", foram absolvidos da acusação de crime de trabalho escravo.  De acordo com a sentença da 1a Vara Federal de São Luís (MA) (confira histórico do processo) publicada em 2009, "a instrução processual não logrou demonstrar com grau de certeza necessária para estribar uma sentença condenatória".

Para a Justiça Federal do Maranhão, "os depoimentos prestados em juízo pelos fiscais [que atuaram nas libertações da Sagrisa] também não apresentam aptidão para darem ensejo a uma condenação, pois apenas confirmam o teor do relatório, o qual não é suficiente para demonstrar a efetiva existência das supostas condições aviltantes de trabalhos".

Uma das justificativas complementares apresentadas pelo Judiciário para absolver o empresário José Augusto foi a extensão do grupo.  "O fazendeiro reside no estado de Sergipe e tem mais de doze fazendas no Maranhão o que torna quase impossível a sua presença constante em todas elas", salienta a sentença.  O Grupo Maratá mantém empreendimentos nos setores agropecuário (pecuária, sucos, café e tabaco), alimentício, de embalagens e também de educação (Faculdade e Colégio José Augusto Vieira).  Só a Fazenda Sagrisa tem cerca de 20 mil hectares.

O MPF/MA recorreu da decisão.  Para o órgão, "a decisão de primeiro grau desprezou completamente a palavra das vítimas, que é essencial nessa espécie de delito, bem como a palavra dos fiscais que confirmaram em juízo todo um teor das autuações que lavaram".  Por conta da operação, José Augusto Vieira entrou para a chamada "lista suja" do trabalho escravo, cadastro de infratores mantido pelo MTE, em dezembro de 2006.  O nome do empresário do Grupo Maratá permaneceu até dezembro de 2007, quando o Judiciário concedeu liminar judicial para a retirada da relação.

Realidades como a retratada acima fazem parte do Atlas Político-Jurídico do Trabalho Escravo Contemporâneo no Maranhão, elaborado pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH) de Açailândia (MA).  O documento foi lançado na última quinta-feira (27), como parte dos diversos eventos da Semana Nacional de mobilizações, por ocasião do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo (28 de janeiro).

Inédito, o Atlas traz sete capítulos partem do histórico da região sudoeste do Maranhão até avaliações críticas das políticas direcionadas ao combate ao trabalho escravo.  A obra contém estudos específicos sobre as vítimas, sobre os empregadores proprietários das terras" e sobre os "gatos".  Há ainda análises das fiscalizações, de processos em andamento no Poder Judiciário e de conexões existentes entre a escravidão e o poder político.

O Atlas compila dados e informações (que constam no acervo do CDVDH e que foram captadas junto a diferentes órgãos públicos), bem como depoimentos de vítimas da escravidão contemporânea que procuraram a entidade.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

AGROINFORMES - 2ª Edição / 2010

Olá,

Segue em anexo o Agroinformes que entregamos nessa semana!

Nesta edição:
  • IV Semana Acadêmica de Agronomia
  • Dia do(a) Agrônomo(a)
  • Os Crimes da Syngenta
  • O Campo e Nossa Formação

Boa Leitura!

Baixe Aqui! Agroinformes 2ª Edição /2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Syngenta: transgênicos, agrotóxicos e violência

Syngenta: transgênicos, agrotóxicos e violência

Localização: Município de Santa Tereza do Oeste, Paraná.

Resumo:
Este caso traz diversas violações de direitos humanos protagonizadas pela Syngenta Seeds, empresa transnacional do agronegócio que produz sementes transgênicas e agrotóxicos. As ações violadoras compreendem assassinato, violência física e moral contra trabalhadores rurais sem terra, manutenção de milícias privadas armadas, realização de despejos forçados sem determinação judicial, adulteração de venenos, contaminação do solo com agrotóxicos, contaminação da agrobiodiversidade com sementes transgênicas, criminalização dos movimentos sociais, entre outras tantas ações.

A Empresa mantinha experimentos ilegais com sementes transgênicas dentro da Zona de Amortecimento de Parque Nacional do Iguaçu, Unidade de Conservação de proteção integral situada na cidade de Santa Tereza do Oeste, oeste do Paraná. Em 2006, organizações de Direitos Humanos, como a Terra de Direitos, organizações da agricultura familiar e Movimentos, como a Via Campesina, denunciaram a ilegalidade ao IBAMA, o que resultou na aplicação de multa ambiental no valor de um milhão de reais.

Com o objetivo de denunciar a violação do direito humano ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e ao direito dos agricultores orgânicos, agroecológicos e convencionais em manter a zona de amortecimento do Parque livre de transgênicos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ocupou a estação experimental da Syngenta. Após a ocupação, os trabalhadores foram atacados por uma milícia privada armada, contratada pela Transnacional, o que gerou sérias lesões corporais em mais de 10 pessoas e o assassinato do trabalhador rural sem terra Valmir Motta de Oliveira, também conhecido como Keno.O caso foi denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais e também no país de origem da empresa.

Além do incentivo e utilização de organizações criminosas como as milícias, o assassinato de Keno e o plantio ilegal de transgênico, o caso Syngenta Seeds levanta a polêmica sobre a atuação das empresas transnacionais, principalmente em países em desenvolvimento na América Latina, África e Ásia. Como se não bastasse os muitos incentivos financeiros e fiscais, inclusive estatais, as empresas transnacionais também contam com a flexibilização legal e sua decorrente impunidade. A atuação das Transnacionais no país envolve desde lobbies no Congresso Nacional e no Poder Executivo pela aprovação de leis menos garantistas à direitos humanos, assim como na aquisição de empresas locais, a fim de exercer um controle monopolítisco dos mercados nacionais. Isto significa garantia de muitos direitos a estas Empresas, mas sem a contrapartida em forma de obrigações e deveres, o que torna muito difícil responsabilizá-las pelas violações de direitos.

Contexto Histórico:
Desde 1998 a filial brasileira da empresa suíça Syngenta Seeds mantinha um campo experimental, com área de 127 hectares, na cidade de Santa Tereza do Oeste, a 6 km do Parque Nacional do Iguaçu. Desrespeitando a legislação ambiental e o Plano de Manejo do Parque, a empresa cometeu uma série de crimes ambientais, realizando experimentos com soja e milho geneticamente modificados, o que, em março de 2006, levou o IBAMA a multá-la no valor de 1 milhão de reais.

Para denunciar os crimes cometidos pela Syngenta, os militantes da Via Campesina ocuparam a estação experimental, no dia 14 de março de 2006, durante a realização da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8/MOP3) em Curitiba, Brasil. A ocupação do Campo Experimental teve ampla repercussão e apoio internacional, inclusive com a organização de uma visita de ambientalistas de mais de 15 países à área ocupada, durante a Convenção.

As 70 famílias permaneceram na área até novembro de 2006, quando o Estado do Paraná cumpriu a liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça Estadual de Cascavel. Mesmo assim, as famílias retornaram ao local depois que a área foi desapropriada pelo Governo do Estado para a criação de um Centro de Agroecologia. Após 16 meses de resistência, no dia 18 de julho de 2007, cumprindo ordem judicial, as famílias se deslocaram para o assentamento Olga Benário, também em Santa Tereza do Oeste.

Em outubro de 2007, cerca de 200 trabalhadores da Via Campesina reocuparam a Fazenda Experimental após rumores de que a Syngenta retomaria os experimentos ilegais, o que exporia as lavouras convencionais próximas ao Parque ao perigo da contaminação por transgênicos. Além disso, a Syngenta não havia pago a multa aplicada pelo IBAMA.

Horas depois da reocupação, mais de 30 homens fortemente armados e vestidos com uniforme da empresa “NF Segurança” invadiram a área e dispararam contra os trabalhadores. Após balearem Valmir Mota, o “Keno”, com um tiro na perna, o executaram a queima roupa com um tiro no peito. A milícia tentou ainda executar a trabalhadora Isabel do Nascimento de Souza com um tiro na cabeça, o que resultou na perda de um de seus olhos e da mobilidade da parte esquerda do corpo. Outros três trabalhadores saíram feridos e um segurança foi morto por integrantes da própria milícia que atiravam desordenadamente, conforme indicou a polícia. A “NF Segurança” atuava de forma irregular naquela região, articulada com a Sociedade Rural do Oeste (SRO) e o Movimento dos Produtores Rurais (MPR), representantes dos latifundiários locais.

Ações desenvolvidas:
A Via Campesina exigiu punição dos responsáveis pelos crimes – principalmente dos mandantes -, a desarticulação da milícia armada na região e o fechamento imediato da empresa de segurança NF. A preocupação foi também de garantir a segurança e proteção a vida de outros dirigentes, alvos preferenciais do ataque, bem como de todos os trabalhadores da Via Campesina na região.

Uma ação penal foi instaurada em decorrência dos crimes cometidos durante a ação da empresa NF Segurança contra trabalhadores e trabalhadoras rurais. Nenhuma pessoa da transnacional Syngenta foi denunciada, assim como nenhum mandante. Apenas o proprietário da NF segurança e nove pistoleiros foram denunciados pelos crimes cometidos.

Inesperadamente, o Ministério Público da Paraná denunciou oito integrantes do MST pelo assassinato do segurança, de Keno e por lesões corporais cometidas pelos pistoleiros da NF Segurança contra os próprios trabalhadores. O MP entendeu – e o Judiciário aceitou a tese – que os trabalhadores são responsáveis pelos crimes única e exclusivamente por terem realizado a ocupação da estação experimental da Syngenta. Diz o MP que os trabalhadores, ao realizarem a ocupação, assumiram o risco de serem vítimas de reação armada da Syngenta e por esse motivo devem responder criminalmente pela violência que sofreram.

A ampla divulgação das informações desdobrou-se também no fortalecimento de Campanhas em afirmação dos direitos dos agricultores livre de de transgênicos, como a Campanha “Por um Brasil Ecológico livre de transgênicos”-, que tem se mostrado instrumento efetivo de embate político.

A repercussão institucional dessas ações resultou, ainda, em audiência pública na Câmara dos Deputados, no dia 16/04/08, por iniciativa da Comissão de Legislação Participativa, para debater propostas de enfrentamento dos crimes cometidos contra trabalhadores rurais no Paraná. Orgaizações de Direitos Humanos representaram o Ministério da Justiça contra a Sociedade Rural do Oeste e NF Empresa de Segurança, requisitando o imediato fechamento e a responsabilização de seus sócios. Em junho de 2008, durante o curso da “Operação Varredura VII”, a empresa de segurança teve a licença de funcionamento cassada pela Polícia Federal, por atuar clandestinamente. (Leia: “PF autua 53 empresas clandestinas de segurança ”).

No plano internacional, o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Execuções Sumárias, Arbitrárias e Extrajudiciais, Philip Alston, recebeu em novembro de 2007 um documento sobre o caso. O relatório – entregue conjuntamente com integrantes da Via Campesina e do MST – denunciou a atuação de milícias armadas no campo e sustentou que a empresa NF Segurança era apenas uma fachada legal para um grupo paramilitar a serviço de fazendeiros da região (Leia mais). O caso passou a receber amplo apoio internacional, tendo centenas de pessoas participado de protestos em repúdio ao assassinato de Keno em diversos países, como Coréia do Sul, Indonésia, Congo, Espanha, no Chile, no Canadá, na Croácia e na Venezuela.

Henry Saragih, coordenador-geral da Via Campesina, convocou mobilizações pelos direitos dos trabalhadores rurais e de repúdio à Syngenta enquanto, na Suíça a organização de agricultores Uniterre solicitou à presidente do país, Micheline Calmy-Rey, o acompanhamento do caso no Brasil. Essas ações foram fortalecidas pela atuação de parlamentares suíços, que requisitaram providências da Syngenta para reparar os danos sofridos pelas vítimas do ataque e medidas a serem adotadas em relação à filial brasileira, para evitar novos eventos análogos. Por conta disso, em março de 2008, o embaixador da Suíça no Brasil, Rudolf Bärfuss, pediu oficialmente desculpas à viúva de Keno, Iris Oliveira, em nome de seu país.

Outra importante incidência ocorreu com o diálogo com acionistas minoritários da empresa, que durante a Assembléia geral da empresa, em abril de 2008, cobraram providências para uma solução pacífica do conflito, para que a empresa respeitasse as leis brasileiras e assumisse sua responsabilidade frente ao ocorrido. É provável que a doação da área experimental feita ao Estado do Paraná, em outubro do mesmo ano, tenha decorrido dessa s inicitivas.

A Anistia Internacional, por sua vez, a partir da interlocução com a Terra de Direitos, lançou um apelo pedindo providências dos órgãos competentes pela morte do dirigente do MST. Além dela, mais de 200 entidades se manifestaram publicamente, no mundo inteiro, contra a ação da Syngenta no Paraná.

O conjunto desta estratégia jurídica resultou na apreciação do caso pelo Tribunal Permanente dos Povos, instância política que durante sessão na cidade de Lima, Peru, em maio de 2008, reconheceu a responsabilidade da empresa Syngenta Seeds Ltda. pela violação de Direitos Humanos. Apesar de toda a mobilização em torno do caso, os processos judiciais ainda estão em andamento no Brasil.

Situação do(s) processo(s):
A complexidade do caso se evidencia nas três classes de processos a ele associadas: processos referentes à desapropriação da área; processos referentes à multa administrativa recebida pela empresa e processos criminais referentes às agressões e homicídios perpetrados pela empresa de segurança NF, contrata pela Syngenta.

a) Em novembro de 2006, o Governo do Estado do Paraná, por meio do Decreto nº 7487, publicado em 09 de novembro de 2006, desapropriou a Estação Experimental para instalar um centro de agroecologia no local e tentar recuperar os danos ao meio ambiente provocados pela empresa. Todavia, em janeiro de 2007, a Syngenta conseguiu uma liminar no Tribunal de Justiça do Paraná que suspendeu os efeitos do Decreto de Desapropriação da área, anulado em janeiro de 2008. Apesar disso e em decorrência da publicidade negativa gerada pelo caso, a Syngenta decidiu doar a área ao Estado do Paraná, em outubro de 2008. Finalmente, no dia 05/12/2009, cumpriu-se o projeto anunciado com a inauguração, no local, do Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Waldir Motta de Oliveira e o Monumento Keno Vive.

b) A Syngenta contestou judicialmente a multa de um milhão de reais. Em novembro de 2007 o juiz proferiu sentença favorável ao IBAMA, confirmando a multa. A Syngenta, não satisfeita, recorreu da decisão. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em janeiro de 2010 deu provimento à apelação, anulando a multa, com o fundamento de que os pareceres de liberação planejada emitidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio – para o funcionamento da estaçao experimental se sobrepõem às legislações ambientais vigentes O INCRA recorreu dessa decisão, que ainda deve ser analisada pelo STJ e STF.

c) Tramita perante a 1ª Vara Criminal de Cascavel a Ação Penal nº 2007.3982-4, ainda em fase de instrução, aguardando oitiva de diversas testemunhas. O Ministério Público acusa a empresa de segurança NF, contratada pela Syngenta, de ser uma quadrilha armada com o objetivo de realizar despejos ilegais em acampamentos de trabalhadores rurais que lutam pela reforma agrária. Vale notar que, a despeito de todas as evidências e das manifestações de diversos grupos apontando o envolvimento da Syngenta com os fatos, a empresa não foi diretamente relacionada aos crimes no curso da ação penal. O processo , porém, tem sido usado principalmente para criminalizar os trabalhadores, que, apesar de vítimas da violência, também foram denunciados como réus, dos quais a Organização de Direitos Humanos Terra de Direitos atua como defensora.

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Fonte: http://terradedireitos.org.br/biblioteca/caso-syngenta-transgenicos-agrotoxicos-e-violencia/